Quinta-feira, Abril 23, 2009

Medalhinha


www.lazeronline.com.br

Corri sábado a tal regata, e cumpri mais ou menos os meus objetivos. Estavam inscritos, por faixa de idade, um A (até de 34 anos); um B (menos de 43 anos); dois Cs (até de 49 anos); um D (até 54 anos) e um F (mais de 60). Eu que sou um dos Cs, achei que chegaria em terceiro no tempo real, atrás do A e do B. Cheguei atrás do A e na frente do B, o que seria ótimo se o meu tempo não tivesse sido tão ruim, muito pior que em outras oportunidades. Talvez eu tenha saído muito forte, porque passei os 250 metros na frente; talvez eu e o barco estivéssemos muito pesados, mais do que em outras provas; certamente não remei bem, porque não sei remar bem. O fato é que fiquei em terceiro no tempo corrigido, atrás do A e do F. Foi muito frustrante pra mim, que esperava bem mais. O meu tempo foi muito pior do que o de quem eu esperava bater, que correu em outra bateria, e ganhou. Piorei. Treinei, treinei e piorei.

Treinei domingo com raiva, sozinho na água, por mais de uma hora. E segunda, num sítio nas montanhas, saí pra dar uma corrida e literalmente me arrebentei (nenhuma lesão), correndo no terreno acidentado por mais de duas horas, perdido e sem água. Estou com os músculos da perna inflamados e doloridos até agora. Descansei na terça, e voltei ao todo-dia, exasperando o novo técnico com a minha dificuldade de remar limpo e relaxado, sem deixar o remo patinar por excesso de força. Parece que esse é o segredo de fazer o barco andar sem se esgotar. Dia primeiro tem mais.

Quarta-feira, Abril 15, 2009

Soutenabilité


Illustration by Remie Geoffroi

Sempre impliquei um pouco com a expressão “desenvolvimento sustentável”, degringolada depois em “sustentabilidade”. Parece que foi popularizada em 1985, por uma comissão da ONU de meio-ambiente e desenvolvimento, conhecida por “Comissão Brundtland”, que em seu relatório vinculou, sob este conceito, o desenvolvimento necessário a suprir as necessidades do presente com a manutenção das mesmas ou melhores condições, em termos de recursos naturais, para as gerações futuras.


Sustentabilidade é uma expressão que contém um raciocínio um pouco complicado, porque o que se sustenta não é o desenvolvimento, como pareceria de uma leitura direta à primeira vista, mas os recursos naturais e o ambiente. Sustenta no sentido de não degradar ou exaurir. Sustentar o desenvolvimento seria apenas manter o ritmo de crescimento, mas a idéia de sustentabilidade é quase oposta, de desenvolver-se andando sobre ovos. Bilhões de humanos mais ou menos famintos engalfinhados com os governos, corporações e latifundiários, na criação das escassas (por definição) riquezas, me parece mais o famoso elefante na loja de cristal

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Paga

Hoje perdi a hora, me atrasei e não fui de bicicleta. Como diz o ditado, a cabeça não funciona, o planeta paga.

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Que bonito é


Reuters

We start from the belief that prosperity is indivisible; that growth, to be sustained, has to be shared; and that our global plan for recovery must have at its heart the needs and jobs of hard-working families, not just in developed countries but in emerging markets and the poorest countries of the world too; and must reflect the interests, not just of today's population, but of future generations too. We believe that the only sure foundation for sustainable globalisation and rising prosperity for all is an open world economy based on market principles, effective regulation, and strong global institutions.




Da declaração oficial do encontro do G20.
Atualizando em 6.4, o pulo do gato em negrito.

Quinta-feira, Abril 02, 2009

rotina

Segunda, velocidade 12km, corrida 4,5km; terça, rodagem 12km, musculação resistência; quarta, rodagem 12km, corrida 4,5km; quinta, rodagem 12km, musculação força; sexta, rodagem 12 km, corrida 4,5km; sábado, rodagem 12km, corrida 4,5km; domingo, rodagem 12 km. Descanso no dia em que acidentalmente faltar. A semana passada foram dois, esta já um.

Terça-feira, Março 31, 2009

Louco pra ganhar


Última das 120 a 130 remadas de uma prova.

A próxima corrida está a algumas poucas semanas, e vou correr sozinho, aqui mesmo. Imagino que eu esteja melhor do que na minha última em single, em novembro, em PoA, mas nunca dá pra saber o quanto se está andando em relação aos outros. Circulamos pela raia, e temos alguma idéia, pelo ponto que cruzamos um com o outro, mas nunca se sabe quem fez a volta um pouco antes, ou parou pra beber água. Acho que eu tenho uma chance real, mas pode ser só ilusão. Terei problemas com o handicap, pois estou no fim da minha classe, e há quem esteja entrando agora, com seis ou sete anos a menos. Também não sei como andam os que treinam em outros horários. Estou treinando o máximo que o meu corpo agüenta, eu acho. Espero que as socializações alcoólicas ocasionais não atrapalhem muito.

Terça-feira, Março 24, 2009

Gran Torino


A Pedalada Pelada ou Peladada 2009, com a qual tive contato através do conhecido programa educativo “Pânico na TV”, despertou em mim uma inesperada consciência ecológica. Não que eu não me preocupasse com o aquecimento do planeta e a degradação do ambiente, mas ainda não tinha realizado a possibilidade de tomar medidas individuais concretas, fora talvez ficar um pouco mais atento ao consumo de água, energia e papel, e reciclar lixo.

Já faz cinco dias que estou indo de bicicleta para a raia da USP, economizando mais ou menos um litro e meio de combustível por dia. E, refletindo sobre o tema, comecei a achar cada vez mais absurda a utilização de automóveis de grandes motores de seis ou oito cilindros, como o Gran Torino 1972 do simpático filme do Clint Eastwood. Se um carro 1.0 já é um grande produtor de gases estufadores, o que dirá de um 2.0, 3.0, 4.0, 5.0 ou mais? Não deveria ser este o próximo alvo dos ativistas ou passivistas (como diz o Pânico)? Se o automóvel é nocivo, mas tolher o seu uso pela população é muito difícil, porque não negociar um primeiro passo?

Todo mundo sabe que grandes motores são associados à virilidade. A sensação de força e eficiência da máquina são sedutoras, para os homens e marias-gasolina. Eu aprendi a dirigir num V-8, e o torque, a potência, e a pouca vibração que este tipo de motor produz (por causa dos vários cilindros contrapostos) são absolutamente cativantes, pra quem gosta de carro. Mas eu não pestanejaria em legislar, tivesse eu este poder, que MOTORZÃO É CRIME.

Sábado, Março 21, 2009

Primeirão


A foto é da regata do sábado passado, campeonato estadual. O barco que chegou na frente é aquele do qual só se vê o bico. Depois dele chegou o dos uniformes vermelho e branco, e por fim o nosso, em primeiro plano. Os tempos foram respectivamente 3'14", 3'16" e 3'23". Só que o barco vermelho e branco tem guarnição classe master "A", ou seja, garotões que ainda correm as provas senior de 2000 metros. Aquele que chegou na frente, também, três competidores de elite mais um master master, pra subir a média, que foi pra "B". O nosso tem dois "C" (entre os quais me incluo) e dois "D", e a média deu "D". A federação se atrapalhou nas contas do handicap e aumentou 9 segundos o tempo do "A", e 6 segundos o tempo do "B", o que nos dava o segundo lugar. Corrigido o erro, uma semana depois virei o primeiro. Estava demorando. Pelo regulamento, mas vencedor.

Sexta-feira, Março 20, 2009

BiCi


Moro a exatos três quilômetros do portão da raia da USP, segundo o Google Earth, se considerado o atalho pela alça da ponte da Cidade Universitária, franqueado a pedestres e ciclistas. É um trajeto seguro e agradável, por ruas tranqüilas até a alça da ponte, e de feio e barulhento só tem a ponte mesmo. Dá uns vinte minutos trotando, uns dez minutos de bicicleta, e cinco minutos de carro. Mas de carro, na hora de voltar, já se pega um pouco de trânsito, o que pode dar uns 15 ou mesmo 20 minutos nos piores dias. Fui muitas vezes correndo, mas achei que isso consumia muito da energia necessária para o treino em si, e acabei comprando uma bicicleta de cento e poucos reais, pela internet. Acho que de carro eu gasto um litro e meio de gasolina pra ir e voltar, considerando o trajeto um pouco maior e o trânsito que se pega na volta, o que dá uns R$3,60 por dia, o que dá uns 86 reais a cada quatro semanas. Ou seja, em dois meses paguei a bicicleta. Em um ano dá mais de mil e cem reais, o que dá pra voar uns quatro mil quilômetros. Fora que dá certinho pra fazer um aquecimento e esfriamento adequados. O problema é que quando está frio, ou se está atrasado, ou se está com preguiça, usa-se o carro. E depois de uns seis meses de bicicleta, abandonei completamente o veículo, que jaz com pneus murchos encostado em uma parede. Hoje fui com uma bici emprestada, e apreciei pedalar tranqüilamente pelas ruas vazias, na hora fria que antecede a aurora. E agora, como querem os arautos pelados das pedaladas, é uma questão de sobrevivência.

Quinta-feira, Março 19, 2009

Cool




Como contei no antepenúltimo post estive em Buenos Aires no carnaval, e aproveitei a oportunidade para comprar alguns bons vinhos pela metade do que se paga aqui. Logo depois fomos atropelados por aquela incrível canícula saariana, e comecei a temer pela integridade do precioso líquido, ao que dizem sensível a variações de temperatura e calores excessivos. Esta circunstância me impeliu a ir atrás de um antigo sonho de consumo – pra usar a expressão desgastada, porque não sonhava tanto assim – uma “adega climatizada”, ou seja, uma geladeirinha pra vinhos, ou um frigobar especializado. Um perfeito símbolo de status pequeno burguês.

Entre tantas ofertas nas lojas online fiquei meio perdido na escolha das dimensões e modelos, de preços tão díspares. É claro que as caríssimas devem ser ótimas, mas não achei o caso de gastar muito. Assuntei com alguns proprietários e concluí que, para as minhas pretensões comedidas, uma de 30 garrafas seria suficiente. E fui tentar descobrir as características técnicas desejáveis.

Não basta ser uma geladeira com suporte de garrafas. Tem que ter um termostato para manutenção de temperatura constante independente das variações externas, e poucas vibrações, que ao que consta também prejudicam o armazenamento a longo prazo, a chamada guarda, que os vinhos de maior qualidade suportam e agradecem. E, dependendo de onde se vai colocar – de preferência perto de onde se bebe, e porque não, onde as visitas possam vislumbrar o símbolo do seu gosto refinado – baixo nível de ruído.

A breve pesquisa me levou às adeguinhas com o chamado sistema termoelétrico de refrigeração, baseado no efeito Peltier, que não utiliza o compressor, eliminando de uma só tacada a vibração e o ruído. Agora está lá, debaixo da escada, visível ao observador atento, ronronando imperceptivelmente, e mantendo o meu pequeno tesouro a declarados 16ºC. Tão legal que dá pena de beber.

Segunda-feira, Março 09, 2009

Uma questão de saúde pública

Prezados senhores,

Há onze anos moro muito próximo ao Parque ****, espaço que sempre utilizei para a prática de corrida. Nos últimos anos tenho ido com menos freqüência, pois pratico outro esporte em outro lugar. Mas já participei de dois grupos de corrida organizados que treinavam lá, sob orientação técnica. E aprendi, não só dessas fontes como de muitas outras, que o piso de concreto não é adequado para a prática da corrida, pois a sua elasticidade é praticamente zero, ao contrário do asfalto, que tem um bom coeficiente de amortecimento para o forte impacto que a corrida produz nas articulações inferiores do corredor, especialmente joelho e calcanhar. Ou seja, qualquer profissional do ramo dos esportes, seja atleta, preparador físico, treinador, técnico ou professor, ou ligado à medicina esportiva, como ortopedistas, fisioterapeutas, e quiropratas, sabe que correr no concreto aumenta muito o risco de lesão no corredor. Mas o fato é que muitos corredores de fim-de-semana, como os que freqüentam o parque, não sabem disso, e são obrigados pela administração do parque, através da sinalização, a correrem no concreto ao invés de o fazerem no asfalto, sob pena de serem admoestados pelos seguranças. É claro que este grave erro administrativo, de destinar as pistas de concreto aos pedestres, e as pistas de asfalto aos ciclistas, irá produzir uma enorme quantidade de lesões nas articulações dos frequentadores do parque, transformando em mal o que só deveria fazer bem. Muitas soluções são possíveis, como possibilitar a coexistência de corredores e ciclistas - que têm na verdade um ritmo muito parecido, já que a velocidade das bicicletas está limitada a 10km/h; ou delimitar uma faixa no asfalto para a ciclovia, como no Parque do Ibirapuera; ou transferir a ciclovia para o concreto. O que é inaceitável, inadmissível porque perigoso para a saúde e assim contrário ao bom senso é obrigar os corredores a utilizarem o concreto. No aguardo de solução urgente,

P.
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Boa tarde,
Agradeço seu contato, trabalhamos muito para que o Parque se torne um local agradável para lazer e a prática de esporte para todos os usuários, estamos trocando o piso de concreto por um piso inter-travado que é mais macio e absorve a água das chuvas não permitindo a impermeabilização do solo, já concluímos nesta semana uma primeira etapa, trocando mais de dois mil metros quadrados do concreto pelo intertravado, esperando em breve trocar o restante, e infelizmente a coexistência de ciclistas e pedestre na mesma via é inviável, os seguranças nos finais de semana trabalham muito no sentido de orientar os usuários e prevenir acidentes, durante a semana de segunda a sexta liberamos a ciclovia para pedestre, porque o movimento do Parque nos permite essa prática mas mesmo assim eles acontecem. De qualquer maneira *****, estou aqui na Administração do Parque sempre a sua disposição para podermos achar uma solução, volto a te dizer que estamos trabalhando pelo bem estar e não queremos de maneira alguma prejudicar quem quer que seja. Obrigado,
J************
Diretor do Parque ***********
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Agradeço a pronta resposta e admito o meu desconhecimento da situação atual do parque, no sentido de ser a vedada a utilização das vias de asfalto aos pedestres apenas nos fins de semana (por isso expliquei não ser mais um frequentador assíduo do parque). Sem dúvida a substituição do concreto (piso rígido) pelo piso inter-travado (piso semi-rígido) diminui o problema, mas ainda assim é um piso menos adequado à corrida do que oasfalto (piso flexível).Não sou especialista em nenhum dos assuntos, mas na minha experiência de senso comum posso afirmar que o parque pode ser adequado para a prática de corrida pedestre intensa e de alto nível, sem prejudicar os demais frequentadores, enquanto a prática do ciclismo, prudentemente limitada aos 10 km/h, permite apenas o passeio recreativo, uma vez que o ciclismo de alto nível necessita espaços muito maiores e velocidades muito mais elevadas. Assim sugiro sejam consultados especialistas para que seja traçado um trajeto tão longo quanto possível, em piso adequado, para a prática de corrida, com quilometragem demarcada, facilitando a prática deste esporte cada vez mais popular e intensamente praticado, para o qual o parque é evidentemente vocacionado (prioridade 1). A ciclovia, destinada aos passeios recreativos, pode ser demarcada nos trajetos restantes (prioridade 2), uma vez que para as bicicletas tanto faz ser o piso de concreto, intertravado, ou asfalto.Agradecendo mais uma vez a atenção dispensada, e insistindo na ausência de propósitos egoísticos na sugestão, por não ser mais um corredor assíduo do parque, subscrevo-me,
Atenciosamente,
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Boa tarde ******, gostei de vc, precisamos nos conhecer, como te disse estou a sua disposição na adm do Parque, um abraço, ******
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******, acho ótimo. Qual o melhor horário?
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Estou sempre aqui no Parque *****, raramente saio. e qdo. saio é para alguma reunião fora do parque, veja qdo. é bom para vc, e me liga marcando, um abraço, ******
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VOU?

Quinta-feira, Março 05, 2009

PL 4547/2008

Prezado Deputado,
Cachaça de Alambique, Cachaça de Coluna ou Aguardente de Cana-de-Açúcar: seria mais coerente a utilização de só duas denominações, “cachaça de alambique”, que especifica uma qualidade no modo de fabricação, e “cachaça”, a denominação genérica. “Cachaça de Coluna” é ridículo e inútil, e “Aguardente de Cana-de-Açúcar” não diz nada, contraria a denominação que se quer reforçar. É a simples definição de “Cachaça”.

Estandardização: embora seja um anglicismo há muito reconhecido, é danado de feio. Porque não “padronização” mesmo, ou a derivação de “estandarte”, de mesma origem que “standard”, “estandartização”, também aceita?

Vasilhame: o litro deve ser obrigatório, como de praxe nos destilados, para não confundir o consumidor quanto a quantidade.

Rótulo e regulação: deve constar do rótulo se o produto é “engarrafado na origem” ou alhures, uma garantia ao consumidor de não adulteração posterior; e informações sobre envelhecimento em madeira (qual madeira), e adição de açúcar, melado ou rapadura para adoçamento ou colorização, características que devem ser regulamentadas para não desvirtuar a cachaça.

Cachaça x rum: “Art. 5º Para efeito desta Lei, entende-se por Cachaça de Alambique e por Cachaça de Coluna ou Aguardente de Cana-de-Açúcar todos os fermento-destilados produzidos no Brasil, elaborados a partir do caldo da cana-de-açúcar, do melado e da rapadura”. S.m.j., a cachaça é feita só do caldo de cana-de-açúcar. Melado e rapadura podem ser adicionados depois para adoçar e colorir a bebida – eu particularmente sou contra, e pode induzir o consumidor a erro quanto ao envelhecimento em madeira, que também altera a cor da bebida. A adição do melado na fermentação, ou melhor, a própria fermentação do melado, não é característica do rum?.

Deve ser estimulada a produção de cachaça sem quaisquer aditivos, mesmo melado e rapadura, e já que se procura qualidade, porque não limitar a cabeça e a cauda a 15% cada?

Eu gosto de branca, não envelhecida e não adoçada.

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

Remero em Porto Madero




Domingo de carnaval, usufruindo das benesses do Mercosul, inconformado com as barreiras alfandegárias ao bom vinho de lá, flagrei este desinibido e exposto esportista metropolitano. Há quem tema que o vinho barato argentino possa matar o vinho barato de cá. É provável. Quanto aos bons, com ou sem proteção não se compara. Preconiza-se um valor fixo por garrafa, independente do preço, o que derrubaria a importação do barato, e baratearia os bons. Perderíamos alguns dólares para eles, mas eu tenho certeza que não é essa a questão. É o trocado aos cofres públicos.

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Massa, matéria, dinheiro


“Matéria atrai matéria, na razão direta das massas, e na razão inversa do quadrado das distâncias”. Vi a primeira vez a fórmula da gravidade de Newton em algum dos livros da coleção infantil de Monteiro Lobato, um daqueles em que o Visconde de Sabugosa tem um papel importante, e a turma viaja pelo Sistema Solar cheirando pó de pirlimpimpim. Outro dia, pensando sobre as bolhas dos mercados e a crise, países pobres e países ricos, lembrei do dito popular “dinheiro chama dinheiro”. E não pude deixar de fazer o paralelo entre os dois enunciados. “Dinheiro atrai dinheiro, na razão direta das massas, e na razão inversa do quadrado das distâncias”. Quanto mais rico, mais rico, e quanto mais pobre e mais longe do dinheiro, mais pobre.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Globalista


abc news

O que anda pela minha cabeça, além dos piolhos (externos) e minhocas (internas) de sempre, é a velha discussão em torno do futuro do mercado globalizado, aquecida pela crise mundial global total, entre os defensores do livre comércio e os protecionistas. Estou iniciando a leitura do livro para leigos, “Bad Samaritans – The Myth of Free-Trade and the Secret History of Capitalism”, de Ha-Joon Chang, um economista coreano que esteve por aqui há algumas semanas, professor de Cambridge e chapa do prêmio Nobel Stiglitz, que ao que parece repete as mesmas idéias em vários livros, e vou saboreando o seu inglês fácil de estrangeiro pra me manter também eu globalizado. É engraçado como o que ele diz, ou disse, em 2007, contrasta com o que estamos vendo dia a dia nos jornais, os EUA levantando a bandeira do protecionismo pra reduzir a velocidade da sua acachapante marcha de desemprego, e o Brasil armando uma força-tarefa para ir à OMC em defesa do livre comércio. Chang acha que o comércio entre países deve ser ponderado por regras de equilíbrio, pois não se pode pôr no mesmo ringue um lutador de sumô de duzentos quilos para lutar com um etíope de quarenta e cinco. Diz que a história não deturpada pelos ricos mostra que os ricos só ficaram ricos com medidas protecionistas, e o papo do livre-comércio é imposição dos ricos pra enfiar seus produtos à vontade nos pobres, por eles nunca adotado. E que os ricos, depois que ficam ricos, chutam a escada pra ninguém mais poder subir. E que a OMC, o FMI e o Banco Mundial são instituições controladas pelos ricos para enfiar goela abaixo dos pobres o livre comércio, condicionado os empréstimos e ajutórios à adoção das políticas do mau samaritano. O rei Obama está nu?

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

ALOHA







Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

Não sou corintiano


Fucei, procurei, mas não consegui nada muito concreto. O John Lade abaixo mencionado era um “corinthian”, assim como o seu amigo o Príncipe de Gales que virou o rei George IV, depois de um período de regência durante a doença mental do seu pai, o George III. Existe até uma obra sobre este George IV chamada “The Great Corinthian”. Não sei ao certo se houve de fato um primeiro clube Corinthians no século XVIII ou não, mas parece que é certo que enquanto se preparava a Revolução Francesa, os jovens nobres ingleses dissolutos se aplicavam nos esportes, como o box, o turfe, a esgrima, a caça, o cricket, e também, ao reverso da moeda, em apostas, jogos de azar, bebida e mulheres. E, por algum motivo que eu não sei qual é, se intitularam “sportsmen” e “corinthians”. Parece que há alguma ligação com o fato da antiga Corinto grega ter uma certa fama. O fato é que a expressão “corinthian” assumiu o significado do ideal amador do esporte, e assim aparece na crônica londrina do período da regência, sempre para identificar um nobre esportista. Nessa época surgiram os personagens de Pierce Egan, que fizeram muito sucesso, “Tom and Jerry” (expressão que virou sinônimo de confusão), ou melhor, Corinthian Tom e Jerry Hawthorn, em “Life in London or The Day and Night Scenes of Jerry Hawthorn Esq. and his Elegant Friend Corinthian Tom”, certamente os avós literários do gato e rato do desenho animado. Há uma referência mais antiga em Shakespeare, “I am no proud Jack, like Falstaff; but a Corinthian, a lad of mettle, a good boy.” — Henry IV., ii. 4”, que deve estar na origem de tudo, significando um cara durão e legal, eu acho. Com a popularização da expressão e o seu significado de ideal esportivo centenas de clubes foram criados no mundo inteiro, particularmente clubes de vela, e especialmente, o famoso clube de futebol inglês, de elevado padrão ético, que em passagem por aqui inspirou a criação do famoso clube paulista de nobre origem operária. O engraçado é que o nome "Corinthians" significa "corintianos".

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Lady Lade



A mulher neste retrato é Lady Lade, nascida, segundo algumas fontes internéticas e inseguras Smith, segundo outras, na improvável família Derby. Improvável porque, como se vê na pintura, o negócio da moça era mesmo cavalo. Maneja as quatro rédeas com tranqüilidade – não entendo nada de equitação, mas imagino serem duas para o freio, e duas para o bridão, para controlar cavalos difíceis – com postura perfeita, montada em um cilhão, ou seja, o arreio do tempo em que não ficava bem para uma dama abrir as pernas em público, nem em cima de um cavalo. Nota-se também que o cavalo, por própria indocilidade ou exibicionismo da amazona, empina sobre as patas traseiras, indicando que o artista pretendeu salientar as virtudes eqüestres da retratada.

É um quadro encomendado pelo então Príncipe de Gales, no século XVIII, que veio a ser o rei George IV da Inglaterra, a George Stubbs, um especialista em pinturas eqüestres. Ao que consta, o retrato sempre foi pouco visto, pois nas últimas centenas de anos esteve pendurado em uma das mais recônditas câmaras do Castelo de Windsor.

Conhecendo a história da ginete, fica fácil imaginar o porquê. Nascida no seio magro da “working class”, biógrafos (eufemistas talvez) dizem que ela trabalhou como “servant” em um bordel, mas o fato dela ser jovem, bonita, mal nascida e morando em um lupanar nos autoriza a imaginar que provavelmente a futura amiga do rei tenha recebido alguns presentes em retribuição a favores sexuais.

Quem a tirou daquele lugar foi o lendário criminoso salteador de estradas (highwayman), John “Sixteen String Jack” Rann. O apelido entre aspas é porque o dândi se vestia de maneira extravagante e exuberante. Como assaltante, era um craque nos cavalos e veículos de tração eqüina, habilidades que transmitiu à namorada. Quando foi preso e enforcado em 1774, Laetitia Smith ou Derby tornou-se amante do Duque de York e algum tempo depois, do milionário Sir John Lade, seduzido por sua perícia eqüestre, com quem veio a se casar, sob protestos da sociedade e da família, em 1787.

Sir John era um estróina, pródigo, perdulário, gastador, viciado em corridas de cavalos, que dissipou toda a sua imensa fortuna futilmente, enfim, um genuíno e pioneiro “sportsman” britânico, de quem se cogita uma ligação com o famoso salteador nos negócios de cavalo, ele próprio um ousado ginete colecionador de façanhas. Daí a sua proximidade com o Príncipe de Gales, também aficcionado do turfe. A histórica fofoca prossegue com a insinuação de que o futuro rei arrastava uma asa real para a moça, proibida por ser mulher do amigo (será?), daí a encomenda do retrato. E Laetitia se destacava na turma, que tinha o mau hábito de tirar perigosos rachas, montados ou pilotando poderosos carros de quatro cavalos, nos locais mais inconvenientes.

Figura interessantíssima, não é? Pra apimentar um pouco mais a história, podemos imaginar que Laetitia e o salteador John Rann, com suas extravagantes indumentárias, fossem a mesma pessoa, e tenham enforcado alguém no seu lugar para que ela pudesse livremente flanar com o Duque de York, Sir John Lade, e sua majestade.

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Uma história pra contar


Como dizem os esportistas, uns voltam com a medalha, outros com uma história pra contar. Sábado fiz a minha melhor prova, um tempo ótimo, mas não tive lá muita sorte. Meu contato em Porto Alegre, que ficou de arrumar o barco, não conseguiu nada até o fim da tarde da véspera. Acabei conseguindo um legal de um clube daqui, que ia usar um barco do meu clube pra outra prova. Mas só deu pra dar uma voltinha, com um vento infernal, sem poder regular nada. Na hora da largada, no dia seguinte, cheguei na cabeceira da raia e tinha partidor pra todos menos pra mim, porque haviam instalado errado e um dos partidores estava na raia de retorno. Havia um forte vento lateral e fui muito prejudicado, já que todos tinham gente para segurar o barco menos eu. Larguei em último, com o juiz na lancha gritando pra eu me afastar dos outros barcos, me ameaçando de desclassificação, quando na verdade os outros que estavam vindo pra cima de mim (lá não tem balizamento), o que me atrapalhou um pouco. Deixei estes dois barcos pra trás, e quando vi estava emparelhado com o terceiro, que vinha pelo lado oposto da raia, no lado protegido do vento, perto dos clubes. Fui olhar de novo só quando estava já ouvindo a gritaria do público, lá no final, e ele estava do meu lado (segundo meu time, eu estava um pouco à frente), e remei forte até o final, com a impressão de ter chegado na frente. Cheguei na premiação depois, pois estava lá no meio do canal, na raia de fora, e ouvi que o terceiro havia sido o cara. Depois saíram os tempos e o meu era menos de 1 segundo atrás do cara (3'52"6 e ele 3'51"7). Na outra bateria da minha classe, que veio logo na seqüência, meu tempo daria o segundo lugar. Pena.

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Segundo








Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Samuel Pallache


Foi na casa dele que a Maria Nunes Pereira foi trabalhar quando chegou em Amsterdam. E foi o grande patrocinador da primeira sinagoga daquela cidade, fundada em 1598, ano do registro do casamento da Maria, e o mesmo ano em que Grócio se doutorou na Universidade de Orleans, aos 15 anos.

Segundo o verbete da Wikipedia, Samuel Pallache intermediou um acordo de mútua assistência Holanda-Marrocos contra a Espanha com Maurício de Nassau, encontrando o príncipe em Haia em 23 de junho de 1608, (um ano antes da trégua e da publicação do Mare Liberum), tratado assinado em 24 de dezembro de 1610. Nassau mexendo os seus pauzinhos. Depois se descobriu que Pallache era agente duplo, e também atuava em favor da Espanha. Nassau lhe outorgou licença de corso e ele capturava os seus naviozinhos portugueses, sustentado pelo parecer do Grócio. Pena que todas as fontes do verbete estão em dutch. Mas há um livro inteiro escrito sobre esta interessantíssima figura.

Maria Nunes Pereira e Hugo Grócio poderiam ter se conhecido na casa de Pallache.

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Oldenbarnevelt


“In January 1609, Grotius attended a series of three-way meetings in The Hague between Oldenbarnevelt, the VOC directors and members of de Dutch Admiralty Board. He was invited on the basis of hes credentials as VOC lobbyst, not in his official capacity as Advocate-Fiscal of Holland. Oldenbarnevelt had called the meetings to discuss the implications of a Truce treaty for the VOC and, more importantly, to reassure its directors that they could continue to 'borrow' warships, guns and ammunition from the Dutch Admiralty Board." (Martine Julia van Ittersum, "Preparing Mare Liberum for the press: How Hugo Grotius Rewrote Chapter 12 of De Jure Praedae, November 1608 - February 1609.").

É uma nota de rodapé de um artigo recente dessa Martine, uma historiadora holandesa. VOC é a Companhia Holandesa das Índias Orientais, a cliente do Hugo, para quem escreveu o De Jure Praedae, do qual o Mare Liberum é o capítulo 12, a fim de justificar a captura da nau portuguesa Santa Catarina (um monstro de 1400 toneladas, com 700 pessoas a bordo), no estreito de Singapura, em 1603.

No mesmo artigo ela conta que a trégua entre Holanda e Espanha (Felipe III na época era o rei também de Portugal) seria arbitrada pelo rei da França e o rei da Inglaterra, e havia a possibilidade real das atividades da VOC serem afetadas pelas negociações. O propósito inicial do trabalho era obter uma sentença favorável no tribunal do almirantado a respeito da legitimidade do butim, e persuadir acionistas protestantes e sisudos preocupados com a honestidade da façanha a aceitá-la como justa. Obtida a decisão e confortados os acionistas, com a evolução das negociações da trégua a VOC passou a instar Hugo a publicar o capítulo 12, a fim de manipular a opinião pública e os intermediários da trégua, para que o tratado não impedisse suas atividades na Ásia. Só que o negociador da trégua pela Holanda era o Oldenbarnevelt (um nome super legal), o chefe do Grócio na carreira pública, que entendeu que a divulgação do Mare Liberum seria nociva às negociações, e mandou o Grócio adiar a publicação até a assinatura (em abril de 1609), e expurgá-la de referências à América e abrandar os termos ofensivos à Espanha e Portual. Em compensação, excluiu da trégua as operações bélicas da VOC na Ásia (“privateering”, embarcações militares privadas comissionadas pelo governo holandês), atendendo assim aos interesses da Companhia. Quem saiu perdendo foi o Maurício de Nassau, que era o comandante militar da Holanda e tinha o seu poder e prestígio dependentes da guerra, e depois veio pegar o Grócio na curva.

Certamente podemos imaginar a heróica Pereira nas reuniões da VOC com Oldenbarnevelt, ou melhor ainda, em uma reunião secreta do Oldenbarnevelt (adoro esse nome), Jeannin (o representante da França) e Wotton (da Inglaterra), para negociar a emenda secreta ao tratado de trégua que garantiu os interesses da VOC.

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

A reta razão



Parece que o Grócio foi muito feliz com seu casamento arranjado, e a sua mulher desempenhou um importantíssimo papel quando o jurista foi preso por Maurício de Nassau, no castelo de Loevestein. Ele obteve do seu ex-cliente permissão para receber livros, que eram transportados em um baú, e numa dessas idas e vindas, em um momento que que a rotina fez relaxar a vigilância, sua esposa Maria Reigersberg fez furos disfarçados no baú, nele introduzindo Hugo, que conseguiu fugir para a França.

O seu gosto pela polêmica, pela defesa de posições perigosas e minoritárias, o habilita à parceria com a heróica Pereira. Dizem que, ainda adolescente, converteu a mãe ao protestantismo porque ela seria inteligente demais para ser papista, o que mostra o seu respeito pela inteligência feminina, talvez incomum para a época (o respeito, não a inteligência, é claro).

E no “De jure belli ac pacis” não considera justa a guerra religiosa: “a melhor razão em favor da opinião que nega que tais guerras sejam justas é aquela que Deus basta para punir as faltas que se cometem contra Ele”, argumento suficiente para derrubar a Inquisição e seus processos, caso fossem suscetíveis à reta razão.

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Porque não?



A Maria Nunes Pereira, forçada a se mudar para os Países Baixos em busca de liberdade religiosa, poderia, por uma reviravolta do destino, ter conhecido Hugo Grócio, Huig de Groot, ou Grotius, um dos pais do direito internacional e do direito natural, de quem poderia ter se tornado protegida. Talvez ele se encantasse com a sua brilhante inteligência e assustadora beleza e a tomasse como assistente. Grócio estaria escrevendo o capítulo da sua obra sobre o direito ao butim, por encomenda da Companhia Holandesa das Índias Orientais, e a Pereira, conhecedora da obra dos escolásticos ibéricos, como Francisco de Vitória, que teria estudado antes da fuga para tentar uma eventual defesa frente a inquisição, que rapidamente perceberia inútil, auxiliaria o mestre a derrubar os argumentos de tratados como Tordesilhas, que estabeleciam privilégios marítimos e territoriais às potências ibéricas, utilizando os argumentos dos próprios juristas ibéricos, desenvolvidos para tentar justificar catolicamente a conquista e subjugação dos gentios dentro de certos limites.

Por uma outra reviravolta do destino, a Pereira seria incumbida de entregar o manuscrito que iria mudar o mundo em uma reunião de reis com o papa, ou no mínimo com altíssimos dignatários, talvez por ser necessário um portador com condições de discutir o trabalho, ante um súbito impedimento de Grócio.

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

A heróica Pereira


(http://www.esnoga.com/)

“Os criptojudeus de Portugal sentiram então, em toda a sua plenitude, a tirania espanhola e nenhum perigo era considerado demasiado em se tratando de fugir do País e procurar liberdade e tolerância em outro canto da terra.

Uma corajosa mulher portuguesa, Mayor Rodrigues, com seu marido Gaspar Lopes Homem, seus filhos Manuel e Antônio Lopes Pereira e suas filhas Maria Nunes e Justa Lopes Pereira, prepararam-se para emigrar no ano de 1590. Os irmãos Manuel e Maria, esta de rara beleza, embarcaram com seu tio Miguel Lopes, com destino à Holanda. Durante a viagem foram capturados por um navio inglês que perseguia os que navegavam sob a bandeira hispano-portuguesa e levados prisioneiros para Londres. A beleza de Maria seduziu o capitão do navio, um duque inglês, a ponto de pedir-lhe a mão em casamento. As relações da bela portuguesa com o duque chegaram aos ouvidos da Rainha Elisabeth que ordenou que lhe trouxessem Maria, a qual tratou com especial consideração: levou-a de carruagem pelas ruas da capital a fim de que os habitantes pudessem ver esta deslumbrante beleza. Maria não deu importância a tais honrarias, não deu atenção aos insistentes pedidos de sua majestade, nem às ofertas honrosas do duque: apenas pediu sua liberdade. Deixou a Inglaterra e, com seus parentes, lançou, por assim dizer, o fundamento da grande comunidade de Amsterdão.” (Kayserling, História dos judeus em Portugal).

Pode ser verdade.

Li em outra fonte que logo ao chegar em Amsterdam, ela e outros criptojudeus tiveram sua cultura religiosa restaurada por um rabino ashkenazem, incluindo a circuncisão dos adultos, e foram trabalhar na casa de Don Samuel Pallache, um famoso espanhol sefaradi embaixador do imperador do Marrocos, agente duplo entre Espanha e Países Baixos, e corsário no Índico. O registro do casamento de Maria é de 1598, ano em que se iniciaram as atividades da sinagoga de Amsterdam.

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

Poderoso timão


Crise mundial global total. O negócio é manter a calma e continuar remando.

Terça-feira, Dezembro 25, 2007

Pacote difícil

Acabei de ler “O jardineiro fiel” e rever o filme. Os dois são ótimos, a mesmíssima história contada em linguagens diferentes, uma experiência profunda. A força das imagens da África com as cores estouradas e a câmara na mão, ao som da música dos coros e tambores. Dou a mão à palmatória e o Ralph Fiennes faz perfeitamente o papel do Justin Quayle. Quem tem bons olhos para o cinema percebeu logo, eu tive que ler o livro pra compreender o personagem tão fielmente traduzido. O livro explica uma série de códigos de classe e as sutilezas dos diplomatas ingleses na condução de suas guerras, como uma passagem em que se acusa os recém saídos da universidade de terem sotaques insossos, ou o estilo tory de fazer um relato, como se fosse uma lista de compras. Não lembrava que a Tessa era advogada. Tem uma pesquisa sólida sobre a indústria farmacêutica, antecipando as denúncias de Marcia Angell.

Mas todo esse pacote foi atropelado pelo maravilhoso “A vida dos outros”, assistido meio por acaso enquanto procurávamos um lugar pra comer no 23, quase todos os restaurantes fechados, quando resolvemos checar a renovada Sala Ig, ex-Uol (uma vez fiameta, sempre fiameta), e tinha lá uma sessão dali a quarenta minutos. Só sobrava tempo para um x-salada no fiel hamburguinho. Sobre o filme não dá para falar pouco. Rendeu uma conversa de uns quinze minutos com o sócio, na manhã do 24. 25, “O amor nos tempos do cólera” no shopping deserto. Feliz Natal.

Sábado, Dezembro 08, 2007

Feérica


A gloriosa blogueira dramaturga cronista arquiteta Lúcia Carvalho publicou dias atrás em sua coluna mensal na revista Morar, da Folha, um ataque às luzinhas de natal, quando mal se iniciava a temporada. Agora, que elas efetivamente já tomaram conta da cidade, depois de intensa e ponderada reflexão, falo das minhas perplexidades sobre o tema profundo e complexo, com o perdão da flexibilização das aliterações em x. É claro que ela tem razão. É infantil, é cafona, e além disso um enorme e inútil desperdício de energia, totalmente incorreto nesses tempos de aquecimento global. Mas temos que assumir que é lindo, com sempre são as luzes na escuridão, especialmente com o intencional efeito de joalheria. Diamantes, pérolas, rubis e esmeraldas sobre o veludo negro da noite. A cidade à noite, sóbria e séria, de repente vira uma animada quermesse, um parque de diversões, um baile mítico e atemporal que incita o departamento de fantasias a tomar conta do ambiente mental do cidadão. Todo ano penso em comprar na Santa Ifigênia uma rolão dessas luzinhas e empetecar a minha casa, mas sempre deixo pra lá. No máximo as modestas coloridas piscantes da árvore de natal que temos já há um tempão. Falta pra mim, como falta pra muita gente, assim como provavelmente à própria Lúcia, a convicção necessária pra superar a autocrítica do ridículo que é despender dinheiro, tempo e energia elétrica numa inutilidade fútil e cafona dessas. Mas é de se admirar quem se dá ao trabalho de contribuir para a iluminação espiritual de todos, especialmente quando se faz sem intuito de lucro, como o comerciante que só quer chamar a atenção para o seu negócio. Fiquei impressionado com a iluminação das pontes sobre o Rio Pinheiros, ao que eu saiba inéditas. Será que o Kassab está em campanha? E não posso concordar com a idéia da Lúcia de que para organizar o bandalho e proteger o landscape seria melhor que os arquitetos prevessem no projeto a localização de luzes natalinas fixas. Seria esquisito como maquiagem permanente.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Amêndoas Amargas

Ontem fui assistir ao "Leões e cordeiros", filme-planfeto anti-bush anti-guerra anti-terror anti-apatia dos comedores de hambúrgueres e batatas fritas. Previsível, pra dizer o mínimo. E antes o trailer do "Amor nos tempos do cólera", baseado no livro do Gabriel Garcia Marquez. Lembrei que li o livro nos oitenta e seis, oitenta e sete, e não me lembrava nada além do título. Depois de perder uns bons dez minutos procurando na nossa bagunçada estante, sofregamente reli de cabo a rabo, na modorra do feriado. O livro abre com a descrição de uma cena de suicídio descoberta pela manhã, a partir do cheiro de amêndoas amargas. Logo se sabe que a morte foi pela vaporização do cianureto, que exala este aroma característico. Lembrei que quando parei de fumar uma das distrações para a ansiedade eram ameixas pretas, que eu comia e ficava roendo o caroço, até uma vez o caroço quebrou e descobri lá dentro uma pequena amêndoa, com um acentuado sabor de amêndoa, um que não é evidente na noz em natura, mas no amareto ou no marzipan. Conversando por acaso com um médico sobre o fato, ele disse que esta amêndoazinha da ameixa tinha um alto teor de cianureto, ou uma substância aparentada a ele. Mas só lendo o livro do Garcia pude fazer a relação entre o aroma, o veneno, e a sua vaporização. Comentei espantado com a minha filha vestibulanda que passava, que acrescentou que era o aroma sentido nos campos de concentração nazistas quando se ligava o gás, conforme aprendeu no cursinho. Isso tudo só no primeiro parágrafo. No livro todo os aromas, odores, cheiros e fedores têm papel importante, assim como a berinjela.

Domingo, Novembro 18, 2007

Pura ficção




A pujante vegetação do baldio do lado, outrora objeto da minha cobiça.


XVI
Victor, na seqüência da sua pesquisa, foi dar em um médico do interior que logo ao início da epidemia do vírus HIV elaborou um programa de saúde pública de combate a este e demais DSTs, aproximou-se do governo do estado e conseguiu implantá-lo. O sucesso evidente em nível estadual e a conquista do governo tucano levaram o programa para a esfera federal. A sua permanência na evolução da discussão das patentes de medicamentos na OMC, a conquista da brecha para a licença forçada em caso de estado de necessidade. A luta contra os grandes laboratórios que tentaram fechar a brecha em regulamentos posteriores, e a aparente virada do jogo, com a implantação dos planos estatais de administração do mercado de medicamentos e o seu enorme poder de negociação de preços, pelo menos nas praças pobres. E quando a corda estourou, foi licenciada à força a patente de um medicamento da primeira linha de combate ao vírus. Mais ou menos contemporâneo a estes fatos foi a sua prematura demissão na coordenação do programa de combate ao vírus na OMS, e andava agora em discussões, debates em Harvard. Teria mordido a isca? Victor não acreditava nisso. Estava entrando na boca do dragão, novamente. Tinha que falar com ele.




Sua outra linha de pesquisa foi ler, com um copo de uísque com gelo lentamente derretendo ao seu lado, ouvindo música que o fazia sentir-se inteligente, como as peças de câmara de Bach, ou os quartetos de Beethoven, o livro de Márcia Angell, “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, uma médica de Harvard, editora de uma importante revista médica da Nova Inglaterra, denunciando a cobiça desumana dos laboratórios farmacêuticos, as mais lucrativas indústrias do mundo, abusando dos medos da população com a exploração da ganância dos médicos. Ou algo tão tenebroso quanto. O cruzamento desta três fontes, a trajetória de médico do interior, a explosiva história do laboratório nacional de genéricos Mercury, dentro do panorama pessimista da indústria mundial pintado por Marcia determinariam o seu plano. Só tinha que pensar como o bandido.